Os papéis da meliponicultura no Brasil

Os papéis da meliponicultura no Brasil

Mel da abelha tiúba (M. fasciculata)

Mel da abelha tiúba (M. fasciculata) produzido pelas comunidades apoiadas pelo PAN

A meliponicultura é uma atividade profissional ainda pouco difundida no Brasil. Embora apresente inúmeros benefícios para os criadores e para o meio ambiente, ela não conta com muitos incentivos dos órgãos governamentais. Grande parte dos estudos sobre melíponas (abelhas nativas) são realizados por grupos independentes que contam com auxílio de colaboradores, como é o caso do Programa Nacional Abelhas Nativas (PNAN).

Um dos principais desafios da atividade é mostrar ao mundo sua potencialidade ainda pouco explorada, seja por falta de conhecimento ou por domínio da apicultura comercial – uma produção centrada nas abelhas com ferrão africanizadas, as Apis mellifera.

Os méis produzidos pelas abelhas nativas contêm muitos nutrientes e propriedades medicinais. Por isso sua qualidade é superior ao mel das abelhas com ferrão. No entanto, como elas produzem menos em relação às abelhas tradicionais, deixam de ser interessantes do ponto de vista comercial – pelo menos pela ótica que se apregoa para a apicultura, com produções em alta escala para exportações, commodities e ganhos em dólares.

Ele ainda é produzido artesanalmente e não é regulado para a venda. Por isso, muitos produtores ‘maquiam’ o mel para ficar parecido ao das abelhas africanizadas e assim conseguir comercializar sem problemas. O que é um erro, já que a mágica do mel produzido pelas ASF está justamente em sua singularidade.

Além disso, essa prática faz com que o meliponicultor tenha que equiparar o preço do produto ao mel tradicional, o que gera prejuízo. Isso porque o mel das abelhas nativas pode chegar a até quatro vezes o valor do mel tradicional.  

Qual seria então o papel da meliponicultura no Brasil? O que os meliponicultores buscam (ou deveriam buscar) ao iniciar nessa atividade econômica?

  • Conservação das abelhas nativas: antes de tudo meliponicultura é preservação das espécies e dos ecossistemas. Por meio da criação racional é possível lutar pela conservação de espécies que estão ameaçadas de extinção por causa do desmatamento. Essa é uma das grandes diferenças em relação à apicultura, que é antes de tudo um negócio.
  • Conservação dos biomas naturais: estimular o cuidado e a preservação dos ecossistemas. As abelhas dependem do meio ambiente e ele depende das abelhas. Por isso, a preocupação vai além da conservação das espécies produtoras. As práticas estão interligadas: preserva-se a flora local que abriga uma comunidade de abelhas e essa comunidade retribui com seu trabalho no processo de polinização, que é fundamental para a manutenção da biodiversidade.

Por isso, um meliponicultor torna-se não só um guardião das abelhas nativas, mas também um soldado que trabalha para a manutenção da integridade dos ecossistemas a elas associados;   

  • Estimular pesquisas científicas e gerar conhecimento sobre as abelhas nativas;
  • Atender consumidores exigentes e nichos de negócios: consumidores conscientes, que se preocupam com sustentabilidade, estão cada vez mais atentos aos produtos que colocam na mesa. Eles querem saber sobre conservação de espécies, mercado justo e boas práticas de manejo dos produtos e, por isso, estão até dispostos a pagar mais caro. Em tese, eles não pagam apenas pelo mel, mas por todo o processo que envolve sua produção, conservação e distribuição.

Na gastronomia, por exemplo, encontramos grandes chefs de cozinha gourmets que difundem a utilização do mel das abelhas nativas. Seus pratos conquistam o gosto de uma clientela exigente tanto dentro do país como fora dele.

  • Valorizar o comércio local e familiar dos produtos das abelhas nativas: algumas associações e empresas apostam no trabalho em conjunto para a estruturação dos pequenos negócios. Como é o caso da Meliponina, um movimento de negócios do Projeto Abelhas Nativas (PAN), criado para estimular a comercialização do mel das comunidades;
  • Encontrar caminhos para os negócios que vão além do consumo habitual do mel como remédio: A Meliponina, busca soluções sustentáveis para os negócios viabilizando a criação das ASF. Ela foi responsável por aprimorar e disseminar a técnica de conservação de mel utilizada até hoje, a maturação;

 Curiosidade: como a Apis mellifera chegou ao Brasil?

As abelhas nativas já eram cultivadas pelos indígenas que habitavam no Brasil e utilizavam seu mel como remédio para diversos males e cura de doenças. Por volta do século XVIII os jesuítas, das missões do sul trouxeram para o país exemplares da espécie europeia.

As abelhas tinham a função de produzir, entre outras coisas, cera para a fabricação das velas que iluminavam as reuniões religiosas. Contudo os primeiros registros oficiais datam de 1839, no Rio de Janeiro.

Mais tarde, na década de 1950, pesquisadores brasileiros trouxeram algumas espécies africanas que cruzaram com as que já povoavam o país. Portanto, as abelhas com ferrão que encontramos em grande parte do continente americano atualmente são o cruzamento dos dois tipos – a africana e a europeia.

Hoje, também conhecida como abelha africanizada, a Apis mellifera é a principal produtora do mel encontrado no mercado brasileiro – uma realidade que o Programa Nacional Abelhas Nativas (PNAN) trabalha para mudar.

O programa foi criado para levantar ações em prol da conservação das abelhas nativas e dar visibilidade a meliponicultura no Brasil. A intenção é levar mais conhecimento à população sobre as ASF e seus produtos, revelando como o mel produzido pela espécie é diferenciado e cheio de benefícios.

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